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segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

“ Que é a Literatura?”, segundo Sartre (Resenha)



 
 
 
 
Nesta resenha trataremos de expor as principais ideias do segundo capítulo da obra “Que é a Literatura”, de Jean-Paul Sartre, intitulado como “Por que escrever?”.

Sartre inicia o texto convidando-nos a refletir as razões múltiplas por que um artista se decide a empenhar-se em uma obra. Para alguns a arte é um modo de “fuga”, para outras uma “conquista” (2004: 33), mas por que um escritor escolhe como forma de fuga ou conquista o exercício da escrita? Para o autor, há por trás disso uma escolha “mais profunda e mais imediata” comum a todos eles e essa é a questão central deste segundo capítulo de sua obra, a qual nos dedicaremos a compreender.

Para acompanharmos as ideias do autor é mister compreender um conceito que as rege, o de que a realidade humana é “desvendante” (2004: 33), isto é, o homem apresenta-se como condição para que as coisas recebam existência; é ele “o meio pelo qual as coisas se manifestam” (idem). Nós é que articulamos as relações entre as coisas, atribuindo-lhes assim significados, como exemplifica Sartre (2004:34): “graças a nós essa estrela [...] essa lua nova e esse rio escuro se desvendam na unidade de uma paisagem”. Com isso quer dizer o autor que é segundo nossos atos e em cada um deles que o mundo se nos revela sob novas perspectivas. Contudo, ao mesmo tempo que nos sabemos como condição na percepção do mundo, reconhecemos também nossa “inessencialidade” para a existência dele, significa que, se por um lado somos os “detectores do ser”, por outro, sabemos que, ao nos distanciarmos de determinada paisagem, nós é que desaparecemos dela, mas ela “permanecerá em sua letargia até que uma outra consciência venha despertá-la”. Daí, conclui o autor, a nossa certeza de sermos tão “desvendantes” quanto “inessenciais em relação à coisa desvendada” (idem).

Contornar esse sentimento de inessencialidade é um dos “principais motivos”, crê o autor (idem), da criação artística: tendo a consciência de criar o objeto, como ocorre na pintura de um rosto ou de uma montanha, introduz-se “ordem” e impõe-se “unidade de espírito” onde antes não havia, deste modo, adquire-se o sentimento de ser essencial, para aquela criação. Todavia, há agora um elemento que me escapa: ao criar um objeto, não posso, ao mesmo tempo, desvendá-lo. Ocorre que não se pode, diz Sartre (idem), “considerar a própria obra com os olhos de outrem e desvendar aquilo que se criou”. Uma vez que o próprio artista estabelece suas regras e métodos, sua intenção, seus sentimentos, não será possível encontrar outra coisa, na obra criada, que não ele mesmo, a sua própria subjetividade. Os resultados nunca poderão ser lidos de forma objetiva, por já termos grande intimidade com as razões, as motivações e os “processos” daquela obra que produzimos; esses processos, afirma Sartre, “são nós mesmos”, de modo que, na percepção, o objeto revela-se essencial enquanto o sujeito mostra-se inessencial, pois, ao conquistar a sua própria essencialidade (pelo ato da criação), acaba por privar dela o objeto, tornando-o, assim, inessencial. Para Sartre, a arte de escrever é a atividade mais exposta à dialética descrita acima.

Acerca disso, o autor nos explica que o “objeto literário” tem uma peculiaridade que o deixa passível de não se completar, por maior que seja o empenho de seu criador - o escritor, o poeta, o filósofo. Trata-se da condição que lhe é intrínseca: para realizar-se precisa de um trabalho conjunto entre autor e leitor. Se ler implica imaginar, formular hipóteses, “prever” e “esperar”, entre outras atitudes, então o escritor não pode ser o leitor de sua própria obra. “Sem espera, sem futuro, sem ignorância, não há objetividade” (2004: 36). Assim, acrescenta o autor, “para onde quer que se volte, o escritor só encontra o seu saber, a sua vontade, os seus projetos, em suma, a si mesmo [...] o objeto por ele criado está fora do seu alcance, ele não o cria para si”, tratando-se, portanto, do efeito que causa nos outros, ele mesmo nunca poderá sentir, de fato, os efeitos de sua obra. É por essa razão que Sartre caracteriza, no caso da escrita, o ato criador como “apenas um momento incompleto”, isto é, a produção da escrita requer, incontornavelmente, o ato da leitura (seu “correlativo dialético”). “É o esforço conjugado do autor com o leitor que fará surgir esse objeto concreto e imaginário que é a obra do espírito”. Trata-se de uma síntese de percepção (leitor) e criação (autor), é isso que ocorre no ato da leitura, momento em que, de fato, a obra se completa e se concretiza.

O leitor, por sua vez, ao desvendar o objeto de leitura, também está realizando uma criação, no entanto, esse desvendamento não ocorre de maneira automática, mais do que ler as palavras como signos, é preciso mergulhar-se na obra, lançar-se para além da escrita, entregar-se. O sentido do objeto literário, adverte Sartre, se dá ”através da linguagem”, mas nunca é dado “na linguagem”, dá-se antes por meio do “silêncio” (ou “o inexprimível”) e “contestação da fala” (“O sentido não é a soma das palavras, mas sua totalidade orgânica”) (2004: 37). Para isso, enfatiza Sartre, o que se espera do leitor é uma completa dedicação ao texto.

O processo da leitura consiste em uma “criação dirigida”, o que significa que cabe ao leitor conectar os dados fornecidos pelo autor e construir, à partir de sua própria subjetividade, o sentido que permeia a obra. O filósofo chega a afirmar que: “o objeto literário não tem outra substância a não ser a subjetividade do leitor” (2004: 38) e ilustra a questão ao indicar a espera de Raskolnikoff (personagem de Dostoiévski em Crime e Castigo) como a minha própria esperaque eu “empresto” a ele (idem). É esse o motivo pelo qual a criação literária, segundo Sartre, só se concretiza no ato da leitura, por haver uma intenção em todo ato de escrever; por haver uma espécie de convite por trás de toda escrita, que só é aceito, por parte do leitor, mediante a leitura; é por meio dessa característica, vale lembrar, que o filósofo diferencia a prosa da poesia: caracterizando-se mais pela utilidade do que pela beleza, isto é, o texto literário é especial no sentido de valer-se da linguagem sempre com uma intenção: a de comunicar algo que incite à ação, não à mera contemplação.

Sartre afirma que “o artista deve confiar a outrem a tarefa de completar aquilo que iniciou” (2004: 39) e isso implica em dizer que toda obra literária é um “apelo” (idem). O que vem a ser este apelo? Precisamente que o leitor aceite vivenciar a experiência de Raskolnikoff, por exemplo. Para Sartre, o apelo que o escritor faz refere-se, sobretudo, à liberdade do leitor – é ela (ou seu uso) que, espera o escritor, contribuirá na produção de uma obra literária; é respondendo à obra que o leitor faz uso de sua liberdade. “A leitura é um sonho livre”, afirma o autor, sendo assim, podemos entender que a proposta fundamental do escritor para o leitor é justamente que este faça uso de sua liberdade, pois, o livro “não é um meio que vise a algum fim: ele se propõe como fim para a liberdade do leitor”, com isso Sartre quer dizer que não é o caso de a liberdade do leitor colocar-se a serviço do livro ou da obra literária, antes a obra é que se coloca, para o leitor, como possibilidade de exercitar a sua liberdade. Ele acrescenta: “A liberdade não se prova na fruição do livre funcionamento subjetivo, mas sim num ato criador solicitado por um imperativo” (2004: 41).

Estamos diante de um ato de confiança e de responsabilidade, demonstrados por Sartre, como ele bem esclarece: “Se recorro a meu leitor para que ele leve a bom termo a tarefa que iniciei, é evidente que o considero como liberdade pura, puro poder criador [...] em caso algum poderia dirigir-me à sua passividade” (idem). Ao valorizar o papel do leitor como fundamental na obra literária, o filósofo trata a obra de arte como valor e aqui estamos diante de um conceito caro para a filosofia de Sartre: o engajamento. Analisemos de que modo ele se insere na dimensão literária.

Para Sartre, já sabemos, a leitura é “um exercício de generosidade”, um momento em que o leitor concede doar “toda a sua pessoa”, com todas as suas qualidades, paixões, “escala de valores” (2004: 42), etc. Entregando-se com generosidade, crê o autor, a liberdade atravessa essa pessoa, transformando sua sensibilidade (idem), que poderá resultar em ação. É com vistas a essa transformação, dotado de certa habilidade e compromisso, que o escritor engajado direciona suas ideias na construção da obra literária - não como imposição, mas como sugestão, ficando ao poder do leitor interpretar esses dados e agir. É responsabilidade do autor, como bem avalia a professora Clarice Fortkamp Caldin em seu texto A Leitura segundo Sartre, “apontar os acontecimentos históricos sem se esconder sob o manto da neutralidade”, embora fique inteiramente a critério do leitor o plano da ação.

Importa saber que, para Sartre, todo ato criador visa o que ele chama de “uma retomada total do mundo”. Esse conceito ficará mais claro se observarmos a seguinte passagem:


Cada quadro, cada livro é uma recuperação da totalidade do ser; cada um deles apresenta essa totalidade à liberdade do espectador. Pois é bem essa a finalidade última da arte: recuperar este mundo, mostrando-o tal como ele é, mas como se tivesse origem na liberdade humana” (2004: 47).



E acrescenta:

é pela cerimônia do espetáculo – e particularmente da leitura – que essa recuperação é consagrada” (idem).


Com efeito, o engajamento está no ato de compreender que a liberdade é atividade criadora e, partindo desta premissa, orientar a experiência estética, que o leitor extrairá da leitura para uma possível vontade de agir, é não só o que constitui o ato engajador de uma obra, como também o mínimo que se deve esperar de seu criador. Esse é o sentido, para Sartre, do fenômeno estético (2004: 48). Sendo mais assertivo, Sartre afirma: “[...] o mundo é minha tarefa [...] a função essencial e consentida da minha liberdade consiste precisamente em fazer vir ao ser, num movimento incondicionado, o objeto único e absoluto que é o universo” (2004: 49). É essa a mensagem essencial que deve chegar ao leitor, dado que, para Sartre, “a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e considerar-se inocente diante dele” (2004: 21).
Sartre encerra o capítulo em questão refletindo o alcance e a extensão do ato de escrever. Ao mencionar que “não se escreve para escravos” (2004: 53), o filósofo considera que a prosa e o regime democrático (“o único regime onde a prosa conserva um sentido”) mantém entre si uma relação importante, sendo que a ameaça de um deve representar a ameaça do outro. Nesta situação Sartre se permite avançar para uma radicalização maior, se assim pudermos chamar: o autor admite que pode haver momentos em que a pena não basta e então será “preciso que o escritor pegue em armas” (2004: 53). Com isso o autor parece querer ressaltar não só que considera uma forma (de combate) tão importante quanto a outra, mas também que ambas podem ser “violentas”, e, para além disso, que ambas representam formas legítimas de engajamento - quer pela escrita, quer pela batalha, dado que ambas significam lutar pela liberdade, sobretudo, defendendo os “valores ideais”, e finaliza:
 
Qualquer que seja o caminho que você tenha seguido para chegar a ela [liberdade], quaisquer que sejam as opiniões que tenha professado, a literatura o lança na batalha; escrever é uma certa maneira de desejar a liberdade; tendo começado, de bom grado ou à força, você estará engajado” (2004: 53).

 



Bibliografia



Sartre J.P. Que é a Literatura?. São Paulo: Ed. Ática, 2004.









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